Mês: abril 2016

O que um bebê precisa? Reflexões de um terceiro enxoval

30 semanas de gestação do Benício e ainda não tenho berço montado, nem lençol comprado, nem bolsa de maternidade pronta, nem pensei ou comprei a primeira roupa que usará quem dirá a que sairá do hospital. Serei relapsa? Uma péssima mãe? Desligada? Mega ocupada com trabalho?

Venho acumulando culpas pensando que já deveria ter tudo isto pronto mas ao mesmo tempo tenho a certeza que tudo isso e mais um pouco estará pronto quando esse bebê chegar. Para que isso aconteça acho que é preciso pensar no amor de mãe e no que isso envolve.

O amor que uma mãe sente pelo filho que está na barriga, quando este é o primeiro, é permeado de incertezas, inseguranças e dúvidas. Como ele será? Como eu serei? Será que vou conseguir? Será que vai doer? Enfim, parece que tudo isso, junto com o instinto materno que a mãe natureza nos fornece de fábrica, se converte em uma mobilização por preparar o ninho para esperar a cria. Todos estes preparativos que confessei que ainda não iniciei vem dar conta destes sentimentos que inundam a gestante e o “pai gestante” quando o tempo para chegar ao parto vai diminuindo, a barriga pesando e a presença do bebê cada vez mais forte pelos movimentos mais intensos, perceptíveis e visíveis. Lembro que na gestação da Sofia, com 20 semanas já tinhamos o berço montado e o quarto em processo de transformação para receber a moça. Os nossos gatos experimentaram tudo: berço, carrinho, gavetas, roupas, enfim, passaram o pente fino.

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Já o amor pelo segundo filho, é um amor que parece planejado ou predestinado a acontecer. Não é que não haja expectativas ou inseguranças, mas é diferente porque parece que ali já há a certeza do amor e a dúvida fica: Será que serei capaz de amar tanto quanto amo o primogênito? Será que conseguirei me dividir em duas?  Será que será do mesmo jeito que foi com o primeiro? Isso tudo repercute nos preparativos da espera do segundo filho: aquilo tudo que começou acontecer na vigésima semana na primeira gestação, com a gravidez da Marta começou lá no alto da semana 35. Nesta gestação viajei para a Europa sem medo de ser feliz, bem lá na vigésima semana, caminhei bastante, fui a congresso, apresentei trabalhos, lembro de me preocupar mais com a saúde da Sofia (otite e consulta médica em plena Espanha) do que com a minha gestação ou cuidados especiais por estar “gravidinha”. Isso não se configura em desleixo e sim tranquilidade com a minha condição. Tinha um misto de pena e/ou culpa de ter de reconfigurar o quarto da Sofia para ser o quarto da Sofia e da Marta, fazer mudanças em um lugar que até então estava ocupado por somente uma criança, me sentia traidora (pronto, falei!). Com isso, fomos montar o berço, arrumar a cama, preparar a mala bem lá no final mesmo e deu tudo certo.

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Com o terceiro, o que dizer do amor? Digo que é um amor surpresa, um amor inesperado, um amor que chega aos poucos e que vem conquistando no susto. É diferente porque está sendo uma experiência com uma gravidez de menino (até o formato do corpo e as vontades de comer são diferentes). Dúvidas e incertezas estão presentes: como serei mãe de menino? Como será este amor por um outro homem que não o Ítalo? Como será educar um menino? De verdade, não tive ataques como tive com as gurias em sair para comprar roupinhas, criar estilo, comprar laços. Ainda não comprei nenhuma roupa para o Benício, só um babeiro preto de caveirinha. Devo estar menos ansiosa, mais tranquila, mais segura e com mais dores nas costas. Esses dias disse ao Ítalo que tinha a sensação que ele chegaria antes do tempo e mesmo assim ainda não tinha nada arrumado, sabe o que ele me respondeu: “mas Camila, é só arrumar, em 10 minutos se faz. Se tu tiver que ir para o hospital, vou pra casa e pego as coisas e trago“. Simples e objetivo. Por que complicamos tanto?

Passado o rito do “chá de fralda,”que nas minhas gestações vivi como um momento de celebrar com amigos e familiares, cada vez me convenço mais de que o bebê mais precisa é de pais tranquilos e seguros de suas escolhas. Não tem fraldas? Vai no mercado e compra como se compra papel higiênico. Camisola especial para o hospital? Ninguém está doente, pode usar roupa normal! Kit berço? Será que precisa tudo aquilo? É claro que é preciso preparar o cenário mínimo, com alguns artigos básicos, para receber este novo membro mas como diz a autora francesa Françoise Dolto “o bebê não precisa mais nada além de um berço e uma caixa para não ficar uma bagunça pela casa toda“.

É nesta fala que tenho me inspirado e me convencido de que não há porque se sentir culpada por não ter o berço ainda preparado, fofinho e cheiroso esperando o Benício, isso vai acontecer. O espaço externo já está sendo mexido: já mudamos de quarto, já temos prateleiras e gavetas destinadas a cada um dos três, herdamos roupinhas de outros bebês e estamos contabilizando o que falta comprar para completar este mínimo necessário. Acho que dá para dizer que o espaço interno está sendo conquistado e ocupado, com expectativas, com o espírito de novidade e dando conta de administrar que esta chegada seja especial para todos nós.

 

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Sendo pais e o cotidiano num fim de semana: é cansativo demais!

Fim de semana começa com os preparativos do café da manhã: adoramos está refeição, ainda mais com o tempo que o fim de semana permite. Já começa sendo trabalhoso que a mesa fique bonita, atrativa, tipo de “revista” quando é preciso intermediar um pequeno conflito entre irmãs por um livro de pintar. Quando a mais velha senta, a mais nova levanta e começa a perambular, logo deita no sofá e começa a pedir mamá (talvez o terceiro desde a hora que levantou). A refeição segue seu curso, eu e o marido comendo e tomando nosso café e o povo já circulando. É assim, alguns dias ficam mais outros menos, comem meio de pé, deitadas,…, enfim… Sabemos que chegará a hora que estarão à mesa 100%, de verdade isso não me preocupa.

Para promover um brincadeira legal, monto as barracas, uma na mesa e um iglu: panorama caótico! Uma quer entrar na barraca da outra, uma não deixa a outra entrar na sua barraca, os gatos tentam entrar nas duas barracas. Para dispersar a pequena, convido para me ajudar a fazer almoço: deixo que mexa no pote de arroz ( a experiência de enfiar a mão dentro do pote de arroz é uma sensação que me lembra a infância, quando ia nos armazéns, mercados com a minha mãe, onde tinha grãos a granel para vender). Resultado: arroz pelo chão. Consigo que a pessoa se acalme e volte para a sala, já com vontade de chupar um bico, curtir um desenho na TV e se aquietar um pouco antes do almoço.  Nesse meio tempo a outra está jogando memória dentro da barraca.

Fim da tarde, decidimos que vamos contar as moedas do cofrinho para comprar um livro de história para a hora de dormir. Já fazem umas semanas que conseguimos que as gurias venham tipo 21:30 para o quarto ouvir uma história antes de dormir. Cada dia, uma de nós conta a história (às vezes são 2, 3 ou 4 histórias, haja interepretacao) e encerra o que chamamos de “procedimentos noturnos” (escavação de dentes, escolha do livro e a história). Geralmente, o sujeito que está nesta tarefa ali fica, até meados da madrugada, dorme exausto. A vontade era de encerrar os procedimentos, retornar à sala, assistir qualquer coisa na TV, tomar um vinho ou mesmos ler um livro (talvez linhas de um capítulo de um romance que está na cabeceira há semanas e que não avança) mas o corpo não aguenta, o cansaço da semana não deixa. Eu, mal consigo me levantar  da cama da Marta porque é muito baixa e a pança de 29 semanas me acarreta a dores lombares fortíssimas, ainda preciso de um auxílio guindaste para sair do quarto. Sem contar o sono acumulado, hormônios, …

Não seria menos cansativo colocar a dupla a assistir um desenho no Netflix no iPad? Ou deixar adormecer no sofá e depois e depois levar à cama?

Hoje de tarde a minha “siesta” se garantiu porque a pequena dormiu o soninho depois do almoço e a grande ficou vendo DVD na sala. E a quantidade vassouras que passamos na casa hoje para recolher os farelos das andarilhas e os arrozes do chão?

Confesso que não sei de onde tiramos energia para isso tudo. Vejo que vale a pena este esforço porque penso que é nestas pequenas coisas que a infância vai se significando para as crianças.  Talvez pela minha profissão, em todas as fases, desde a gestação até os primeiros anos, leio muito e especialmente agora tenho lido uma francesa chama Françoise Dolto (“Quando os filhos precisam de pais“). Entre outras mil coisas, ela tem um capítulo que fala da leitura e sua disputa com as outras midias. Fala da importância da leitura para os bem pequenos, quando realizado pelos pais e que isto encaminha para o gosto futuro pelos livros.

Quero que este hábito perdure e que meus filhos disfrutem da leitura. Possibilitar que vivam momentos e estas experiências de aprendizagem com os pequenos detalhes do cotidiano nos mostram que vale a pena este cansaço!

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Créditos fotos: Giselle Sauer